A tragédia do Brasil na Copa do Mundo de 1966

A tragédia do Brasil na Copa do Mundo de 1966

O Brasil chegou na Inglaterra em 1966 como bicampeão mundial. Saiu eliminado na fase de grupos. Sessenta anos depois, segue sendo a única vez que isso aconteceu — e o trauma forçou a reformulação que levou ao tricampeonato de 1970.


O Brasil chegou na Inglaterra em 1966 como bicampeão mundial, com dez vitórias e dois empates somando as duas campanhas anteriores, trinta gols marcados contra só nove sofridos. A expectativa era simples: nas duas últimas Copas só tinha dado o Brasil, por que não numa terceira? O Brasil saiu da Inglaterra eliminado ainda na fase de grupos, e até hoje, sessenta anos depois, segue sendo a única vez que isso aconteceu.


A preparação caótica

Garrincha e Vavà na final da Copa do Mundo de 1958 — a dupla que brilhou nas duas conquistas anteriores chegou a 1966 com os dias contados juntos pela seleção Garrincha e Vavà na final da Copa de 1958. Os dois, junto com Pelé, formaram o núcleo das conquistas de 1958 e 1962 — mas a geração chegou à Inglaterra já no limite. Foto: autor desconhecido (Domínio Público) / Wikimedia Commons

O desastre começou muito antes da bola rolar. A preparação foi descrita, por jogadores e jornalistas da época, como uma “bagunça danada”:

  • O técnico Vicente Feola convocou 47 jogadores pro período de observação — um número tão grande que virou sinônimo do caos organizacional daquela seleção
  • Antes mesmo da Copa, o presidente da CBD, Paulo Machado de Carvalho, defendeu publicamente que outro técnico deveria continuar no comando, gerando instabilidade política logo na largada
  • Saiu Paulo Amaral, preparador físico das duas campanhas vitoriosas, e entrou Rudolf Hermanny, especialista em judô que nunca tinha aplicado seus métodos no futebol antes daquela Copa

Um time velho demais e jovem demais ao mesmo tempo

O grupo de jogadores era um retrato de transição mal resolvida:

Sete atletas já eram bicampeões mundiais — Gilmar, Bellini, Djalma Santos, Pelé e Garrincha entre eles — enquanto outros cinco fariam parte, só quatro anos depois, do tricampeonato de 1970. Era, ao mesmo tempo, um time velho demais e jovem demais, sem padrão tático definido.


O último jogo de Pelé e Garrincha juntos

Mesmo com toda essa bagunça, o Brasil foi favorito nas casas de apostas inglesas. Na estreia, em 12 de julho, venceu a Bulgária por 2 a 0, com gol de Pelé direto de cobrança de falta e outro de Garrincha.

Foi, sem ninguém saber na hora, a última partida em que os dois gênios jogariam juntos pela seleção.

E foi também nesse jogo que os defensores búlgaros, em entradas duras, machucaram o joelho esquerdo de Pelé, problema que o tiraria da partida seguinte.


A derrota pra Hungria e o fim de uma sequência histórica

Sem Pelé, substituído por Tostão, o Brasil perdeu pra Hungria por 3 a 1, em 15 de julho. O goleiro Gilmar também se machucou durante o jogo e nem conseguiu pular na cobrança de pênalti que fez o terceiro gol húngaro.

Essa derrota carrega um peso histórico duplo:

  • Encerrou a sequência de treze jogos sem perder que o Brasil mantinha em Copas do Mundo (recorde que só seria superado, décadas depois, pela Holanda)
  • Foi a única derrota de toda a história da seleção brasileira com Garrincha em campo

A eliminação contra Portugal

Precisando vencer Portugal, estreante na competição, pra se classificar, Feola entrou em pânico tático: fez nove mudanças no time titular pra esse jogo decisivo, recolocou Pelé em campo mesmo se recuperando da lesão, e deixou Garrincha no banco.

Em campo, Pelé voltou a ser alvo de faltas violentas, dessa vez dos portugueses — sem nenhuma intervenção do árbitro inglês George McCabe. A sequência de lances é até hoje listada entre os piores erros de arbitragem da história das Copas.

O Brasil perdeu de novo por 3 a 1, em 19 de julho, e foi eliminado. O resultado final, décimo primeiro lugar entre dezesseis seleções, é até hoje a segunda pior campanha da história do Brasil em Copas, só atrás da décima quarta colocação de 1934.


O legado do trauma

O choque de 1966 forçou uma reformulação profunda no futebol brasileiro: na comissão técnica, na preparação física, na forma de montar elenco. Foi esse processo de reconstrução que desembocaria, quatro anos depois, no time de 1970 — até hoje lembrado como uma das melhores seleções da história do esporte.

Desde aquela eliminação na Inglaterra, o Brasil nunca mais caiu na primeira fase de uma Copa do Mundo, em formato nenhum, em nenhuma das quinze edições disputadas desde então.


Imagens: Wikimedia Commons. Garrincha e Vavà 1958: autor desconhecido (Domínio Público).