A história da escolha das cidades-sede da Copa de 2014
De 22 candidatas a 12 escolhidas: como dois anos de disputa política, técnica e financeira definiram quais cidades brasileiras receberiam os jogos do Mundial.
O Brasil foi confirmado como país-sede da Copa de 2014 em 30 de outubro de 2007, sem disputa, porque o sistema de rodízio de continentes da FIFA na época garantia a vez da América do Sul. Mas decidir qual país sediaria a Copa foi a parte fácil. Escolher quais cidades dentro do Brasil ficariam com os jogos levou quase dois anos de disputa política, técnica e, em mais de um caso, financeira.
Vinte e duas cidades brasileiras apresentaram candidatura: além das óbvias, como Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte, entraram na disputa nomes como Belém, Campo Grande, Cuiabá, Florianópolis, Goiânia, João Pessoa, Maceió, Manaus, Rio Branco, Teresina, e até Campinas, no interior paulista, com um projeto de estádio próprio separado da capital. Depois de um laudo técnico avaliando infraestrutura, hotelaria e aeroporto de cada uma, três foram eliminadas de cara: João Pessoa, Teresina e Campinas. Maceió desistiu por conta própria em janeiro de 2009, deixando dezessete candidatas na briga.
Entre janeiro e fevereiro daquele ano, uma comissão da FIFA visitou as dezessete cidades restantes uma por uma. A divulgação da lista final estava marcada pra 20 de março de 2009, mas atrasou bastante: o anúncio oficial só aconteceu em 31 de maio, em Nassau, nas Bahamas, durante o congresso anual da entidade, com o então presidente da FIFA, Joseph Blatter, lendo os nomes das doze escolhidas com visível dificuldade de pronúncia.
As doze escolhidas
A lista final ficou assim: Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, Brasília, Cuiabá, Manaus, Fortaleza, Salvador, Recife e Natal. Ficaram de fora cinco candidatas que, pelo menos pra parte da imprensa da época, eram favoritas mais fortes do que algumas que entraram: Belém, Campo Grande, Florianópolis, Goiânia e Rio Branco.
Cuiabá e Manaus foram chamadas de principais surpresas da lista, representando o Centro-Oeste e a região Norte numa Copa que a FIFA queria espalhada por todo o mapa do país, não concentrada só no eixo Rio-São Paulo.
A última vaga disponível ficou disputada até o fim entre Natal e Florianópolis, e Natal levou a melhor por questões descritas como “políticas e logísticas”. Foi uma decisão apertada, com Florianópolis ficando de fora por uma margem pequena.
O drama de São Paulo
Cerimônia de abertura da Copa de 2014 na Arena Corinthians, em Itaquera, São Paulo. Foto: Danilo Borges/Portal da Copa (CC BY 2.0) / Wikimedia Commons
A escolha de São Paulo teve um drama próprio. No início do processo, a aposta era que a capital paulista entraria com o Morumbi e concorreria inclusive pra sediar a abertura do torneio. Só que o projeto de reforma do Morumbi enfrentou problemas financeiros que a FIFA considerou incompatíveis com o cronograma, e o estádio foi retirado do projeto. Chegou a se discutir construir um estádio novo no bairro de Pirituba, na zona noroeste da cidade, ideia também descartada por falta de tempo.
A solução final foi a prefeitura, o governo do estado e o comitê organizador se unirem em torno de um estádio que ainda nem existia: a nova arena do Corinthians, em Itaquera, construída especificamente pensando na Copa e que terminou sediando a partida de abertura do torneio.
Recife e o estádio fora da cidade
Recife resolveu o próprio impasse de um jeito parecido, só que geograficamente mais radical: construiu um estádio totalmente novo, mas fora dos limites da própria cidade, no município vizinho de São Lourenço da Mata, dentro da região metropolitana.
Arena Pernambuco, em São Lourenço da Mata. Construída fora dos limites de Recife para sediar os jogos de 2014. Foto: Bruno Lima / MTur Destinos (Domínio Público) / Wikimedia Commons
Seis das doze cidades escolhidas, incluindo essa nova arena pernambucana, já tinham passado por teste um ano antes, recebendo jogos da Copa das Confederações de 2013, evento que funcionou como ensaio geral pra infraestrutura e logística da Copa do Mundo.
Brasília e o Maracanã
Estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília, reformado para a Copa de 2014. Foto: Marinelson Almeida (CC BY 2.0) / Wikimedia Commons
O Maracanã, no Rio, teve a parte mais tranquila do processo: foi consenso quase imediato que o estádio receberia a final, repetindo o papel de 1950. Com isso, o Maracanã se tornou o segundo estádio do mundo, depois do Azteca na Cidade do México, a sediar duas finais de Copa do Mundo.
Maracanã reformado para a Copa de 2014, que sediou a final entre Alemanha e Argentina. Foto: Daniel Basil (CC BY 3.0 BR) / Wikimedia Commons
O estouro do orçamento
O custo de tudo isso explodiu em relação ao planejado. A estimativa original para as obras de estádio era de 1,1 bilhão de dólares. O valor final girou perto de 3,6 bilhões, mais que o triplo, com cinco das doze cidades-sede construindo estádio inteiramente novo do zero.
Foi exatamente esse estouro de orçamento, somado a atrasos de obra em praças como Recife, Fortaleza e Natal, que alimentou boa parte da tensão social que antecedeu a Copa de 2014, com gente questionando se valia a pena gastar tanto dinheiro público em estádio enquanto hospital e escola esperavam fila. A Copa, no fim, aconteceu dentro do prazo, com as doze sedes prontas, mas a discussão sobre se o investimento valeu a pena seguiu rendendo debate muito depois da bola parar de rolar.
Imagens: Wikimedia Commons. Abertura: Danilo Borges/Portal da Copa (CC BY 3.0 BR). Arena Corinthians: Danilo Borges/Portal da Copa (CC BY 2.0). Arena Pernambuco: Bruno Lima/MTur Destinos (Domínio Público). Mané Garrincha: Marinelson Almeida (CC BY 2.0). Maracanã: Daniel Basil (CC BY 3.0 BR).