Os defensores do amadorismo no futebol

Os defensores do amadorismo no futebol

Antes do futebol virar indústria, teve gente disposta a lutar para que ele nunca pagasse salário a jogador nenhum. O amadorismo não era só conservadorismo: tinha um projeto de classe inteiro escondido atrás da palavra.


Antes do futebol virar a indústria bilionária que é hoje, teve gente disposta a lutar, com todas as forças, pra que ele nunca pagasse salário a jogador nenhum. E não era só conservadorismo gratuito: tinha um projeto de classe inteiro escondido atrás da palavra “amador”.


A origem aristocrática da FA Cup

Final da FA Cup de 1882-83, entre Old Etonians e Blackburn Olympic — a última final vencida por um clube amador da elite inglesa Final da FA Cup de 1882-83 entre Old Etonians e Blackburn Olympic — última final ganha por um clube amador antes do profissionalismo. Foto: autor desconhecido (Domínio Público) / Wikimedia Commons

A briga nasceu na Inglaterra, ainda no século 19. Os primeiros clubes de sucesso da FA Cup, a competição mais antiga do mundo, eram formados quase só por “gentlemen”: ex-alunos de escolas particulares caras e universidades, gente que vivia de renda própria e não precisava trabalhar pra comer.

O Old Etonians, time ligado à tradicional escola de Eton, e seu craque Lord Arthur Kinnaird, filho de um banqueiro poderoso, são o retrato perfeito desse momento inicial: o futebol como passatempo nobre, não como ofício.


O crescimento do jogo e a pressão das fábricas

O problema é que o jogo cresceu rápido demais pra ficar restrito a quem tinha tempo livre de sobra. No norte da Inglaterra e na Escócia, onde a base de jogadores vinha das fábricas e da classe trabalhadora, faltar ao trabalho pra treinar e jogar significava perder salário de verdade.

Clubes daquela região começaram a pagar bicho, ou até salário disfarçado, pra atrair e manter os melhores atletas. A Football Association reagiu com força: em 1884, chegou a expulsar dois clubes só por usarem jogadores profissionais.

A entidade insistia que o amadorismo precisava ser protegido, e o argumento oficial era sobre caráter e moral: o futebol deveria formar o espírito esportivo, não virar fonte de renda, porque o lucro corromperia o sentido do jogo.


O que o argumento moral escondia

O argumento moral escondia outra coisa, bem mais concreta: manter o futebol amador também mantinha o futebol fora do alcance de quem precisava trabalhar pra viver — ou seja, de qualquer um que não fosse rico. Defender o amadorismo, na prática, era um jeito elegante de excluir a classe trabalhadora sem precisar dizer isso abertamente.

A pressão das ruas falou mais alto que a moral da FA. Em 1885, com o pagamento ilícito já tão disseminado que ficou impossível fiscalizar, a entidade inglesa cedeu e legalizou o profissionalismo, com medo de que o país literalmente se dividisse em duas federações separadas — uma do norte profissional e outra do sul amador. Em 1888, nasceu a primeira liga de clubes profissionais do mundo.


O amadorismo marrom no Brasil

No Brasil, a história rimou de um jeito ainda mais explícito sobre quem o amadorismo protegia. Os primeiros clubes brasileiros também eram domínio de elite branca, e a defesa do amadorismo, por aqui, servia abertamente pra manter negros e pobres fora dos campos oficiais, enquanto o futebol de verdade, talentoso e cheio de malícia, continuava sendo jogado em peladas e ligas suburbanas, fora do circuito chancelado pela alta sociedade.

Antes da profissionalização oficial, em 1933, o país viveu um período batizado de “amadorismo marrom”: clubes pagavam seus jogadores por fora, escondido, mantendo a fachada de amadores enquanto remuneravam por debaixo dos panos.

PaísProfissionalização oficialArgumento usado
Inglaterra1885Moral esportiva
Brasil1933Proteção da “pureza” do jogo

O argumento dos defensores do amadorismo marrom

Os defensores do amadorismo marrom tinham um argumento curioso pra justificar manter as coisas como estavam: diziam que o público não queria profissionalismo, e que a entrada do dinheiro afastaria o torcedor dos estádios, corrompendo a paixão genuína pelo clube.

Do outro lado, quem defendia a profissionalização respondia com um argumento prático: sem salário oficial e seguro, os melhores jogadores simplesmente iriam embora, e o nível técnico do futebol brasileiro despencaria justamente por falta de estrutura pra reter talento.


O que a história respondeu

A história deu razão ao segundo grupo. A profissionalização não destruiu a paixão do torcedor — ela é, hoje, exatamente o que sustenta o futebol como espetáculo de massa.

Mas o argumento moral usado pelos defensores do amadorismo, tanto na Inglaterra quanto no Brasil, raramente foi só sobre moral. Era, na maior parte das vezes, sobre quem podia, e quem não podia, jogar.


Imagens: Wikimedia Commons. Final FA Cup 1882-83: autor desconhecido (Domínio Público).