A quantidade de faltas que o Pelé recebeu nas Copas

A quantidade de faltas que o Pelé recebeu nas Copas

A fama de que Pelé foi um dos jogadores mais agredidos da história das Copas tem registro de jornal pra provar — mas nos rankings modernos de faltas sofridas, o nome dele não aparece. O motivo diz tudo sobre como o dado esportivo mudou.


A fama de que Pelé foi um dos jogadores mais agredidos da história das Copas do Mundo não é exagero de torcedor nostálgico. Tem registro de jornal pra provar. Mas, curiosamente, quando você procura um ranking oficial de quem mais sofreu falta em Mundiais, o nome de Pelé nem aparece entre os cinco primeiros. E o motivo desse contraste conta uma história interessante sobre como o futebol passou a registrar dado.


O episódio mais documentado: 1966

Seleção brasileira na Copa do Mundo de 1970, com Pelé na fila da frente — a Copa que veio logo após o trauma de 1966 A seleção brasileira de 1970, a geração que reconstruiu a confiança após o trauma de 1966. Pelé (de camisa 10) está na fila da frente, terceiro da direita. Foto: El Gráfico (Domínio Público) / Wikimedia Commons

A Copa de 1966, na Inglaterra, é o episódio mais documentado. No jogo de abertura do Brasil contra a Bulgária, em Liverpool, os volantes búlgaros Jetchev e Kotkov chegaram a dar, segundo relatos da época, 23 entradas violentas sobre Pelé numa única partida, com a tolerância do árbitro alemão Kurt Tschenscher. Mesmo sob esse cerco, ele ainda conseguiu marcar um gol de falta aos 15 minutos.

Mas a sequência de pancada o deixou tão machucado que ele precisou ficar fora do jogo seguinte, contra a Hungria — justamente a partida em que o Brasil acabou derrotado.


A Copa que mudou as regras

Pra fechar a participação naquela Copa, na partida decisiva contra Portugal, ainda se recuperando da lesão, Pelé voltou a campo e foi alvo do zagueiro João Morais, que aplicou duas faltas violentas seguidas sobre ele sem ser expulso pelo árbitro inglês George McCabe. A sequência de imagens daquele lance é tão conhecida que, até hoje, costuma aparecer em listas de piores erros de arbitragem da história das Copas.

Pelé chegou a declarar, na época, que não jogaria mais Copa do Mundo, revoltado com o nível de violência permitido contra ele.

Esse episódio específico de 1966 é citado até hoje como pano de fundo pra entender por que o cartão amarelo e o vermelho foram criados logo na Copa seguinte, em 1970.


O ranking moderno — e a ausência de Pelé

Só que aí vem a parte curiosa. Levantamentos recentes que ranqueiam os jogadores que mais sofreram falta em toda a história das Copas colocam:

PosiçãoJogadorFaltas sofridas
Diego Maradona152
Lionel Messi65
Jairzinho64
Neymar60
Cristiano Ronaldo58

Pelé não está nessa lista.


Por que Pelé não aparece

A explicação não é que Pelé tenha sofrido menos. É que a estatística de “faltas sofridas” como dado oficial de partida — contado e registrado de forma sistemática jogo a jogo — simplesmente não existia direito no futebol das décadas de 1950 e 1960.

O que sobrou da era de Pelé são relatos de jornal, contagens informais feitas por repórteres presentes no estádio, e a memória visual de lances marcantes. Não é um banco de dados comparável ao que hoje empresas de estatística esportiva produzem para cada jogador, em cada jogo.

A reputação de Pelé como um dos jogadores mais agredidos da história das Copas é real, documentada e tem peso histórico suficiente pra ter ajudado a mudar regra do jogo. Só não é uma reputação que dá pra comparar, número contra número, com jogadores de gerações em que cada disputa de bola já nasce contabilizada.


Imagens: Wikimedia Commons. Seleção brasileira 1970: El Gráfico (Domínio Público).