O jogo da vergonha da Copa de 1982

O jogo da vergonha da Copa de 1982

Em espanhol chamam de Desgracia de Gijón. Em alemão, Nichtangriffspakt von Gijón. Em francês, le Match de la honte. Quando um jogo ganha apelido em quatro línguas e nenhum é elogioso, alguma coisa muito errada aconteceu.


Em espanhol chamam de Desgracia de Gijón. Em alemão, Nichtangriffspakt von Gijón — “pacto de não agressão de Gijón”. Em francês, simplesmente le Match de la honte, o jogo da vergonha. E tem gente que, na ironia mais cruel possível, chamou aquela partida de “o Anschluss” — o mesmo nome usado pra anexação nazista da Áustria em 1938.

Quando um jogo de futebol ganha apelido em quatro línguas diferentes, e nenhum deles é elogioso, alguma coisa muito errada aconteceu.


A zebra que abriu o buraco

Rabah Madjer, atacante argelino que marcou o gol histórico da vitória da Argélia sobre a Alemanha Ocidental na Copa de 1982 — o resultado que levou ao Jogo da Vergonha Rabah Madjer, em 1986. Seu gol na vitória argelina sobre a Alemanha por 2 a 1 foi um dos maiores resultados da história das Copas — e acabou sendo anulado por um combinado entre os próprios alemães e austríacos dias depois. Foto: autor desconhecido (Domínio Público) / Wikimedia Commons

A história começa com uma zebra histórica. Na Copa de 1982, na Espanha, a Argélia entrou em campo contra a Alemanha Ocidental na primeira rodada do grupo e venceu por 2 a 1, com gol de Rabah Madjer, se tornando a primeira seleção africana a vencer uma europeia numa Copa do Mundo.

Foi um resultado gigantesco. Mas o caminho da Argélia até a última rodada não foi linear: depois de perder pra Áustria por 2 a 0, eles venceram o Chile por 3 a 2 e precisavam que a conta fechasse.


A matemática que tornou o combinado possível

O problema é que a Argélia jogou sua última partida um dia antes de Alemanha Ocidental e Áustria se enfrentarem. E quando os dois times europeus entraram em campo, já sabiam exatamente o que precisavam:

Bastava a Alemanha Ocidental vencer por um ou dois gols de diferença que os dois, Alemanha e Áustria, avançavam juntos, e a Argélia ficava de fora pelo saldo de gols.

Era matemática pura, e os dois times sabiam fazer conta.


Os oitenta minutos mais lentos da história

A partida foi no estádio El Molinón, em Gijón, em 25 de junho de 1982. Aos dez minutos, a Alemanha abriu o placar com um gol de Horst Hrubesch. E a partir daquele momento, o jogo simplesmente parou de existir.

Os dois times passaram os oitenta minutos restantes trocando passe no meio-campo, sem nenhuma tentativa real de atacar, de criar, de fazer qualquer coisa que parecesse competição esportiva:

TimeAproveitamento de passes
Alemanha Ocidental~99% (dentro do próprio campo)
Áustria~98% (dentro do próprio campo)

Números que normalmente seriam elogio e que naquele contexto eram prova do crime.


A reação do estádio

A torcida espanhola, que foi ao estádio esperando um clássico de rivalidade entre os vizinhos, começou a perceber o que estava acontecendo:

  • Vaias generalizadas, gritos de “Fuera, fuera” (fora, fora)
  • “Que se besen, que se besen” (que se beijem, em tom de provocação)
  • Torcedores argelinos presentes ergueram notas de dinheiro pro campo, insinuando que o resultado tinha sido comprado
  • Um torcedor alemão, revoltado, chegou a queimar a bandeira do próprio país em protesto

Os narradores pararam de narrar

Quem talvez tenha reagido mais forte foram os próprios narradores:

  • O comentarista alemão Eberhard Stanjek simplesmente parou de comentar a partida, dizendo ao vivo que aquilo era uma vergonha e não tinha nada a ver com futebol
  • O narrador austríaco Robert Seeger foi além: pediu, ainda durante a transmissão, que as pessoas desligassem a televisão

A consequência que mudou o futebol pra sempre

Depois do jogo, os jogadores alemães voltaram pro hotel e foram recebidos por torcedores furiosos jogando ovos. Provavelmente o único caso na história do esporte em que um time foi “ovado” depois de ganhar uma partida.

A Federação Argelina entrou com protesto formal na FIFA. A entidade analisou e decidiu que nenhuma regra havia sido quebrada. O técnico alemão Jupp Derwall resumiu a defesa com uma frase que ficou famosa: “queríamos avançar, não jogar futebol.”

Mas o episódio teve uma consequência que mudou o torneio pra sempre: a FIFA decidiu que a partir da Copa de 1986, os dois últimos jogos de cada grupo passariam a ser disputados rigorosamente no mesmo horário.

Com todo mundo jogando ao mesmo tempo, nenhum time saberia o resultado dos outros jogos enquanto o seu próprio ainda estivesse rolando — o que tornava qualquer tentativa de acerto simplesmente inviável na prática.

Essa regra continua valendo até hoje. E Gijón é o motivo direto dela existir.


Imagens: Wikimedia Commons. Rabah Madjer 1986: autor desconhecido (Domínio Público).