A seleção brasileira treinando num navio rumo à Copa de 1934
Jogadores escondidos em sítios, um navio virado campo de treino, o goleiro adversário vendo o pênalti ser ensaiado no convés: a Copa de 1934 começou mal antes de chegar à Itália.
Antes de pensar em tática ou escalação, a Copa de 1934 já era um problema de logística. Não tinha voo internacional regular pra time de futebol cruzar o Atlântico, então a seleção brasileira simplesmente embarcou num navio, e o trajeto até a Itália acabou virando, sem ninguém ter planejado assim, parte decisiva da própria narrativa daquela Copa.
A guerra civil do futebol brasileiro
Mas antes do navio sair do porto, o Brasil já estava se sabotando em terra. O futebol brasileiro vivia uma guerra civil entre entidades: a CBD, que insistia no amadorismo, e a recém-criada Federação Brasileira de Futebol, que reunia os clubes que já tinham assumido o profissionalismo e se recusavam a liberar atleta pra Copa.
A saída da CBD foi oferecer dinheiro por fora pra atrair jogador, prática que um jornal da época resumiu numa manchete sarcástica:
“Patriotismo por 30 contos”
Clubes paulistas, pra não perder seus craques, chegaram a escondê-los em sítios e fazendas no interior do estado. Alguns jogadores precisaram embarcar escondidos pra conseguir se juntar à seleção. No fim, só quatro paulistas vestiram a camisa, e o zagueiro Domingos da Guia, um dos melhores do país, ficou de fora porque o clube uruguaio onde jogava não o liberou.
O navio que virou campo de treino
Cartaz oficial da Copa de 1934, na Itália — torneio que o Brasil disputou sem nenhum amistoso em 1933. Autor: Gino Boccasile (Domínio Público) / Wikimedia Commons
Com esse time montado de qualquer jeito, sem nenhum amistoso disputado em 1933, a delegação embarcou no Rio de Janeiro em 12 de maio de 1934, a bordo do transatlântico Conte Biancamano. A viagem durou cerca de quinze dias, e os jogadores treinaram, ao longo de todo o trajeto, no próprio convés do navio — sem campo, sem grama, sem estrutura nenhuma. Muitos engordaram pelo caminho, e não houve tempo de recuperar a forma física antes do primeiro jogo.
O adversário no mesmo navio
E aí vem o detalhe mais curioso de toda essa história: o navio fez escala em Barcelona, e ali embarcaram os jogadores da seleção espanhola, justamente o primeiro adversário do Brasil naquela Copa. Os dois times seguiram juntos no mesmo navio até Gênova, na Itália, confraternizando e até batendo bola informalmente no convés.
Ricardo Zamora (dir.), goleiro espanhol e um dos melhores do mundo na época, visto aqui na Copa de 1934. Foi ele quem observou Waldemar de Brito treinar o pênalti no convés — e depois defendeu a cobrança. Foto: Autor desconhecido (Domínio Público) / Wikimedia Commons
Durante uma dessas sessões no convés, o goleiro espanhol Ricardo Zamora — um dos melhores do mundo na época — observou de perto o atacante brasileiro Waldemar de Brito treinando cobrança de pênalti contra o goleiro reserva Pedrosa, do Botafogo. Zamora guardou aquilo na memória.
O jogo e a eliminação
A seleção chegou à Itália com apenas dois dias de antecedência pro primeiro jogo. Em 27 de maio, no Estádio Luigi Ferraris, em Gênova, diante de 16.500 pessoas, o Brasil entrou em campo contra a própria Espanha que tinha viajado ao lado dele. O time espanhol abriu 3 a 0 ainda no primeiro tempo.
No segundo, o Brasil teve uma cobrança de pênalti a favor. Waldemar de Brito foi pra cobrança e bateu exatamente do jeito que tinha treinado no convés do navio dias antes. Zamora, que já sabia pra onde a bola ia, pulou no canto certo e defendeu. Leônidas da Silva ainda descontou o gol de honra brasileiro, mas o placar final ficou em 3 a 1 pra Espanha.
Como a Copa de 1934 era mata-mata puro desde o início, a eliminação foi imediata. O Brasil disputou um único jogo naquela edição e terminou na 14ª colocação entre as dezesseis seleções participantes — a pior campanha da história do país em Copas do Mundo até hoje.
A ironia final
Tem uma ironia boa fechando essa história: Waldemar de Brito, o jogador que perdeu aquele pênalti decisivo no navio e na vida real, é o mesmo que, mais de duas décadas depois, em 1956, levaria um adolescente desconhecido chamado Pelé pra fazer um teste no Santos.
Imagens: Wikimedia Commons. Cartaz 1934: Gino Boccasile (Domínio Público). Ricardo Zamora: Autor desconhecido (Domínio Público).