As transmissões da Copa do Mundo no Brasil
De um locutor gritando do telhado em 1938 até o recorde mundial de audiência simultânea no YouTube em 2026: quase noventa anos de história das transmissões do Mundial no Brasil.
As duas primeiras Copas, em 1930 e 1934, simplesmente não chegaram ao brasileiro em tempo real. Quem queria saber o resultado dependia do jornal do dia seguinte, ou de telegrama. A relação entre o torcedor brasileiro e a Copa do Mundo ao vivo só começou de verdade em 1938, e o caminho até a transmissão que a gente conhece hoje passa por rádio amador no telhado, satélite emprestado da chegada à Lua e um pool de quatro emissoras dividindo o mesmo sinal de áudio porque não tinha outro disponível.
Do jornal impresso ao rádio (1938)
A Copa de 1938, na França, foi a primeira a ter cobertura em tempo real no Brasil, mesmo que de forma precária. As Emissoras Byington, um grupo que reunia rádios de São Paulo, Rio, Niterói e Curitiba numa rede batizada de “Rede Verde-Amarela”, levaram o locutor Gagliano Neto pra acompanhar a seleção. As linhas telefônicas internacionais da época eram tão ruins que, em determinado momento, o narrador precisou subir num telhado pra conseguir sinal.
O Brasil terminou em terceiro lugar naquela edição, e foi a primeira vez que o país inteiro pôde acompanhar uma campanha da seleção em tempo real, ouvindo em praças e bares com alto-falante instalado especialmente pra isso.
Esse vínculo se aprofundou em 1950, quando o Brasil sediou sua primeira Copa e a Rádio Nacional, a maior emissora do país na época, fez a cobertura completa, incluindo a transmissão do jogo que terminou no Maracanaço.
A TV chega, mas com atraso de um dia
A televisão chegou ao Brasil em 1950, com a TV Tupi, mas levou anos pra alcançar o futebol. O primeiro jogo transmitido ao vivo na TV brasileira só aconteceu em 18 de setembro de 1955, um Santos 3 a 1 Palmeiras na Vila Belmiro, pela TV Record. A Globo, que nem existia ainda nessa época, entrou no futebol só em 1965, com um amistoso entre Brasil e União Soviética no Maracanã, e mesmo assim com duas horas de atraso entre o fim do jogo e a exibição: a partida terminou às 18h, e foi ao ar às 20h, depois de revelada e editada a película.
Por causa dessa limitação técnica, até 1966 a Copa do Mundo só podia ser acompanhada ao vivo pelo rádio no Brasil. As imagens de TV, quando existiam, vinham em forma de filmes curtos exibidos no estilo de cinejornal, no cinema ou na TV, sempre pelo menos um dia depois do jogo de verdade ter acontecido. O torcedor sabia o resultado pelo rádio, e só via as imagens horas ou dias depois.
O salto do satélite e o Tri em cores (1970)
A virada técnica começou em 1967, com um programa chamado “Our World”, a primeira transmissão internacional via satélite da história, exibida ao vivo pra 24 países. O Brasil só entrou nessa era em 1969, graças a uma estação da Embratel instalada em Tanguá, no Rio de Janeiro. A primeira transmissão via satélite da TV brasileira foi uma entrevista com o papa Paulo 6º, seguida pela cobertura ao vivo da missão Apollo 9 e da chegada do homem à Lua, na Apollo 11.
Foi com essa estrutura pronta que a Copa de 1970, no México, se tornou a primeira da história transmitida ao vivo e em cores pro Brasil, mesmo que a maior parte dos brasileiros ainda estivesse vendo em aparelhos de preto e branco.
A Adidas Telstar, bola oficial da Copa de 1970 no México — a Copa do primeiro sinal ao vivo via satélite para o Brasil. Foto: Zac Allan (Domínio Público) / Wikimedia Commons
Os direitos de transmissão foram negociados com o empresário mexicano Emilio Azcárraga Milmo, e o acordo só permitia um único sinal de áudio disponível pra todo o país. A solução foi um pool entre quatro emissoras — Tupi, Globo, Record e Bandeirantes — compartilhando a mesma transmissão, com narradores e comentaristas de cada canal se revezando jogo a jogo, e até dentro da mesma partida.
Foi assim que essa Copa ficou marcada por duplas de narração como João Saldanha e Geraldo José de Almeida, o “Gera”, dividindo o mesmo microfone pra descrever o tricampeonato brasileiro.
A era Globo e o longo reinado exclusivo
A partir de 1970, a Globo construiu uma identidade própria de cobertura de Copa que durou décadas: Paulo Stein como narrador principal em 1986 e 1990, com João Saldanha, já fora do futebol como técnico e atuando como comentarista, ao lado dele. Saldanha, aliás, tem uma história curiosa: morreu na Itália em 1990, quatro dias depois do fim daquela Copa, que ele cobria pela TV Manchete, não pela Globo.
Em 2002, a emissora protagonizou outro marco técnico: a final daquele ano, Brasil 2 a 0 Alemanha, em 30 de junho, foi a primeira transmissão em alta definição de uma Copa do Mundo no Brasil, exibida experimentalmente em telas de cinema em São Paulo e no Rio.
A fragmentação recente
Por muito tempo, ter a Copa do Mundo significou ter a Globo com exclusividade. Em 1982, por exemplo, com os direitos travados com a Globo, a Rádio Record encontrou uma saída criativa: em vez de competir, convidou os próprios ouvintes a acompanharem o rádio enquanto assistiam ao jogo na televisão.
Esse modelo de exclusividade só começou a se quebrar de verdade nas últimas edições, com a entrada de canais como SporTV, SBT e, mais recentemente, plataformas de streaming dividindo pedaços da cobertura. Um símbolo forte dessa mudança aparece na Copa de 2026: o SBT voltou a transmitir o torneio depois de 28 anos fora, através de uma parceria com a N Sports, e entre os nomes na narração está Galvão Bueno, justamente o narrador mais associado à história da Globo nas Copas, cobrindo um Mundial fora da emissora onde construiu toda a carreira pela primeira vez.
Depois de quase noventa anos de história, a Copa do Mundo no Brasil saiu de um único locutor gritando do telhado pra um mercado de transmissão dividido entre várias emissoras e plataformas ao mesmo tempo.
Imagens: Wikimedia Commons. Bola Telstar 1970: Zac Allan (Domínio Público).