O último Campeonato Brasileiro com mata-mata
Em 2002, o Santos entrou na fase final em oitavo lugar e virou campeão numa final épica contra o Corinthians — a última vez que o título nacional foi decidido por eliminatórias.
Desde 2003, o Brasileirão é decidido do jeito mais simples possível: todo mundo joga contra todo mundo, ida e volta, e quem soma mais ponto no fim leva a taça. Mas isso é recente. Até 2002, o campeonato nacional sempre teve uma fase final de mata-mata decidindo o título, e a última edição disputada assim virou, sem ninguém imaginar à época, uma das finais mais lembradas da história do torneio.
O formato de 2002
O formato funcionava assim: 24 times jogavam entre si numa primeira fase de pontos corridos, e os oito primeiros avançavam pra uma fase final inteiramente eliminatória, com quartas de final, semifinal e final, todas decididas em dois jogos, ida e volta. A partir de 2003, a CBF decidiu abandonar esse modelo e alinhar o Brasileirão ao padrão das principais ligas europeias: só pontos corridos, sem mata-mata nenhum, campeão é quem tem mais ponto na tabela depois de todo mundo jogar contra todo mundo duas vezes.
O Santos que quase ficou de fora
E o último campeão da era do mata-mata foi um time que ninguém esperava ali. O Santos terminou a primeira fase em oitavo lugar, a última vaga disponível pra fase final, numa classificação tão apertada que dependeu de outros resultados pra se confirmar:
Bastava Grêmio, Fluminense e Coritiba vencerem seus jogos da última rodada que o Santos ficava de fora.
O time que salvou o Santos, sem querer, foi o Gama — já matematicamente rebaixado e sem nada em jogo — que surpreendeu todo mundo goleando o Coritiba por 4 a 0.
Com a vaga garantida quase por acidente, o Santos virou outra equipe na fase de mata-mata. Nas quartas de final, enfrentou o São Paulo, melhor time da primeira fase com 52 pontos, e o eliminou com duas vitórias: 3 a 1 na Vila Belmiro e uma virada por 2 a 1 no Morumbi. Na semifinal, goleou o Grêmio por 3 a 0 em casa e seguiu tranquilo até a final mesmo perdendo o jogo de volta por 1 a 0.
A Vila Belmiro, palco das vitórias do Santos na campanha de 2002. Foto: Nelson R. de Lima Filho (CC BY-SA 4.0) / Wikimedia Commons
A final histórica contra o Corinthians
A final foi contra o Corinthians, time montado pra ganhar, comandado por Carlos Alberto Parreira e já dono de dois títulos naquele mesmo ano, o Torneio Rio-São Paulo e a Copa do Brasil. O primeiro jogo, disputado no Morumbi (que recebeu as duas partidas da decisão, com ingresso dividido igualmente entre as torcidas), terminou 2 a 0 pro Santos, com gols de Renato e Alberto, diante de quase 60 mil pessoas.
O jogo de volta, em 15 de dezembro de 2002, é o que ficou marcado pra sempre. Precisando vencer por dois gols de diferença pra forçar a prorrogação, o Corinthians teve a chance real de virar tudo. Robinho, com apenas 18 anos, abriu o placar de pênalti ainda no primeiro tempo, depois de um drible de “pedalada” sobre o lateral Rogério que entrou pro repertório eterno de lances daquele time.
No segundo tempo, o Corinthians buscou a virada com gols de Deivid e Ânderson, deixando o agregado em risco real de virar prorrogação. Mas o Santos não se entregou: Elano empatou aos 43 minutos, e Léo, já nos acréscimos, fez o gol que fechou a final em 3 a 2 naquele jogo e 5 a 2 no placar agregado.
O fim de uma era
A taça do Campeonato Brasileiro, conquistada pelo Santos em 2002 após um jejum de 34 anos. Foto: RedaiqueJRs (CC BY-SA 4.0) / Wikimedia Commons
Foi o primeiro título nacional do Santos desde 1968, encerrando um jejum de mais de três décadas levantando esse troféu específico, com um time de garotos da base — Robinho, Diego, Elano, Alex, Renato — que tinha começado o campeonato cotado, pela imprensa, como candidato ao rebaixamento.
E é por isso que essa final carrega um peso simbólico extra até hoje: foi a despedida de um formato inteiro de disputa. Desde então, o Brasileirão nunca mais teve uma fase de mata-mata decidindo o campeão, e até quem defende a volta do formato antigo, alegando mais emoção e drama, reconhece que dificilmente a CBF vai abrir mão da estabilidade comercial que os pontos corridos trouxeram pro calendário do futebol brasileiro.
Imagens: Wikimedia Commons. Vila Belmiro: Nelson R. de Lima Filho (CC BY-SA 4.0). Taça do Brasileirão: RedaiqueJRs (CC BY-SA 4.0).